Parte TRÊS

março 9, 2008 by alexandre rodrigues

Bandida, bandida, bandida.

Disse que queria encontrar o sentido da vida e um diploma de Direito para seguir a profissão do pai, que é a mesmo do avô, mas que não era a mesma do bisavô, que deu duro a vida toda em um armazém de secos e molhados. Foi num barzinho, no final da tarde, que apareceu para virar a noite conosco no mesmo lugar, ouvindo um cantor chato e seu violão, e terminou a madrugada comigo dentro dela, pedindo aos berros que gritasse: “Bandida, bandida, bandida”. Na manhã seguinte, penteou o cabelo durante cerca de meia hora, me jogou um beijo da porta e foi embora para sempre.

Parte DOIS

março 8, 2008 by alexandre rodrigues

Uma breve história do tempo.

Sento-me encostado à parede aos dezenove e dois anos depois, como se isso fosse possível, me encontro no mesmo lugar. Como se os dois anos não tivessem passado. Ou tivessem, mas eu não me fora. Eu tivesse-me ido, mas de alguma maneira permanecido. Ou nada disso tenha realmente se passado e, em dois anos, tudo o que aconteceu – a passagem pelo exército, o primeiro emprego, duas experiências sexuais, o conhecimento de dois tipos e drogas, a morte de um parente distante – não tenham sido mais do que um quase. Ou um quê. Ou nada. De modo que quando estou na mesma posição, no mesmo lugar, sem a lembrança de ter feito o mesmo durante 731 dias – considerando-se a passagem de um ano bissexto no transcurso – algumas coisas fazem mais sentido do que outras. Uma galáxia distante, por exemplo, move-se a centro e vinte quilômetros por segundo na direção da nossa. Quando chegar, fatos assim não terão a menor importância”.

Parte UM

março 6, 2008 by alexandre rodrigues

A senhora Low Chen explica como matou o marido durante um ataque de raiva em pleno jantar.

“Eu sempre dizia… dia a ele… sabe? Algumas coisas podem e outras não. Algumas se suportam e com outras é impossível. Mas ele não me dava atenção e nem me dava ouvidos. Dizia que eu falava demais. De certa forma é verdade. Falo mesmo. Estou sempre falando, mas o senhor entenda: aqui éramos só nós dois, aposentados, velhos, o tempo todo juntos. Por isso comecei a ver televisão quinze ou dezesseis horas por dia. Televisão ajuda a ficar quieto. Desde que acordo, até a hora de dormir, assisto a qualquer coisa que esteja passando. Não sou de ter preconceito. Mas ele até disso reclamava. Tornou a minha vida um inferno. Mas do que eu falava mesmo? Ah sim, tem certas coisas que se suporta e outras não. Por exemplo: depois da décima ou décima primeira vez, quando ele enfiou o dedo no nariz na mesa do jantar achei que não era mais o caso de de só reclamar. Apanhei o garfo em cima da mesa e o senhor mesmo pode ver como tudo acabou”.

Sonho número MMXXDCCIII

fevereiro 28, 2008 by alexandre rodrigues

Sonhei esta noite que eu estava cobrindo as Olimpíadas de Pequim e dentro do estádio, à beira do campo, uma mulher gorda tomava conta de uma enorme caixa de brindes e oferecia a todo mundo: “vai uma camiseta aí?”

Quando fui pegar a minha, a estampa era a igreja de Ouro Preto e estava escrito bem grande embaixo: CAMPINAS.

Enquanto isso, no beisebol, a China vencia Belarus por 1 a 0.

fevereiro 21, 2008 by alexandre rodrigues

Mais um belo ensaio esse aqui.

A máquina de ser

fevereiro 21, 2008 by alexandre rodrigues

Eu caminhava pela ruas como um peregrino sem seita a seguir.

(A máquina de ser)

Os contos são como devem ser contos: curtos, precisos, densos, nada banais. Há uma variedade de narradores e um modo bem peculiar de narrativa. Têm em geral poucas páginas (são 24 histórias em 146 páginas), mas hora nenhuma dão a impressão de que mais seriam necessárias. Valem-se do inusitado e do trágico com a mesma maestria.

Foi meu primeiro livro de João Gilberto Noll. Aqueles outros três na estante agora parecem muito mais atraentes.

fevereiro 7, 2008 by alexandre rodrigues

Fotos dos 61 quartos do hotel Fox, em Copenhague. No lançamento do Fox na Dinamarca, a Volkswagen convidou 21 designers e ilustradores para transformar cada quarto do antigo Park Hotel. O resultado em geral é exagerado, mas tão diferente de um quarto de hotel convencional que dá para relevar que se trata de algo criado para divulgar um carro.

** Adendo: Mas se a Volks, em vez de gastar em promoções, gastasse em segurança no Fox, oito pessoas ainda teriam todos os dedos das mãos.

Final alternativo

fevereiro 4, 2008 by alexandre rodrigues

ET

O público aguarda ansioso que algo aconteça. ET acaba de morrer. As crianças chegam até ele. Sua tristeza é comovente. Mas nada acontece. ET continua morto, seu corpo inerte e sem cor. Elliot chora. A pequena Drew Barrymore diz que precisa de um drinque. No cinema, crianças berram no colo dos pais. Os créditos sobem. O lamento é geral quando as portas se abrem. Por vários anos os filhos terão de freqüentar psicólogos.

Pig

janeiro 30, 2008 by alexandre rodrigues

Nos últimos meses quis experimentar e criar novos blogs mesmo que todos, exceto esse, não tenham durado. Dark Kubrick foi uma piada com as previsões otimistas do Orkut, transcritas ao contrário todos os dias até o dia em que enchi o saco. Evil Clown devia ter sido um blog de vídeos, uma coletânea pessoal que acabou por falta de tempo para encontrar um interessante todos os dias.

Mas a Grande Corporação Alexandre Rodrigues não desiste. O porco de chapéu é um blog sobre economia e mercado financeiro. Há muito tempo noto um descolamento entre o que se escreve sobre as bolsas e o que realmente acontece. Jornalistas têm dificuldades de entender o mercado financeiro, costumam retratá-lo com base no que dizem os operadores, que por sua vez preferem dar a sua versão para a imprensa, não necessariamente a realidade. Por outro lado operadores do mercado em geral não costumam escrever a respeito.

A Bolsa tem uma existência à parte do mundo e segue regras próprias, não importa o que digam de hora em hora a Bloomberg ou a Globonews sobre o que está acontecendo. O porco de chapéu é uma tentativa de explicá-lo. Será produzido em parceria com Leandro Demori e no fim das contas tentará fazer… errr… jornalismo.

Que fim levou meu esquerdismo?

janeiro 27, 2008 by alexandre rodrigues

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Estou de mudança, envolvido no ritual de me livrar das coisas velhas e inúteis. Hoje à tarde finalmente foi a vez do meu antigo esquerdismo. Foi estranho retirar as bandeiras de cima do armário. Estavam lá desde 2003. É uma desculpa mentirosa dizer que todo mundo passou por isso. Há quem nunca foi enganado.

De todo modo, quando apanhei as bandeiras, restava a curiosidade de ver o que aconteceria. Levei as três – uma vermelha do PT, duas amarelas da campanha de Lula em 2002 – junto com sacos cheios de lixo ou de revistas velhas às 15:11 para a frente do prédio. Voltei ao apartamento e, por trás da janela, passei a observar.

Achava que só interessariam a algum perdido da classe média. O Bom Fim não é propriamente um lugar onde vivem pobres. Mas eles passam por aqui. O primeiro catador se interessou apenas pelo lixo. Abriu alguns sacos, recolheu revistas e foi embora. Nenhuma atenção às bandeiras, que continuaram encostadas numa árvore. Aumentou minha confiança de que seria um funcionário público ou algo assim a recolhê-las.

Mas dez minutos depois apareceu o segundo. Empurrava um carrinho de supermercado cheio de papelão. A primeira coisa que fez foi apanhar a bandeira vermelha. Encaixou-a no carrinho. Prometeu a si mesmo em voz alta: “Vou andar com ela até o fim do governo da Yeda, que não paga o funcionalismo”. Recolheu revistas, revirou alguns sacos, foi embora.

Nas últimas sete horas passaram muitos outros catadores. Nenhum quis as bandeiras remanescentes. Nem como lixo. Um hora voltei ao lado de fora e cravei uma delas no chão. Um velho passou logo em seguida. Chutou o mastro e arrancou-a do lugar. Uma hora atrás o caminhão da prefeitura levou os sacos que ainda sobravam, mas não as bandeiras. Ainda estão no chão.

The final cut

janeiro 22, 2008 by alexandre rodrigues

Tinha o rosto amarelo e rosado e lembrava um antigo personagem de desenho. Da testa brotavam pingos de suor. No peito sem camisa, usava um grande cordão de outo. À sua frente, sobre uma toalha branca, as armas foram todas arranjadas como a obra de um artista conceitual. Estavam sem munição.

– Isso é para você – me alcançou um revólver 22 que cabia quase inteiro na minha mão.

Empertigou-se e me olhou nos olhos por um instante. Um olhar inquisidor. Depois abriu uma gaveta, pegou outra arma – uma pistola – e pôs no lugar do revólver recém-retirado. Ajeitou-o até deixá-lo alinhado com uma fileira de outras pistolas.

– Você vacilou comigo. É um filho da puta, mas se arrependeu, então não vou fazer nada contigo. Mas o Cruz eu não perdôo. Vamos dar um recado a ele (sorriu). Ah, leva o Pequeno com você.

O Pequeno levou algum tempo para conseguir se ajeitar no banco da frente. Praguejou contra o hábito da indústria de construir carros pequenos. O apelido era só um modo de dizer. Tinha mais de dois metros, o corpo largo de ex-leão-de-chácara e ex-lutador de luta-livre. Apontou seus olhos minúsculos e o nariz amassado de ex-boxeador na minha direção quando ordenou.

– Vamos.

O carro se moveu lentamente, parecendo tão sonolento quanto eu. Fora obrigado a acordar mais cedo do que o habitual. Pequeno socou a porta do apartamento com suas mãos grandes até a minha aparição com cara de sono. Me deu o recado. Agora, enquanto seguia ao meu lado, calado, parecia absorvido por alguma grande questão. Cruzava as mãos e as enfiava entre as pernas. Estava nervoso. O casaco caía por cima do câmbio. Me atrapalhava na hora de mudar a marcha, mas resolvi não reclamar.

Rodamos por mais ou menos uma hora. Paramos finalmente diante da casa. Uma rua de terra batida e poucas casas. Nenhuma como aquela.

– É aí – informei, já abrindo a porta.

– Aí?

– É. Aí.

Paredes altas e brancas. Dois andares. Janelas, porta, telhado, tudo branco, feito numa igreja. O Velho Cruz fazia questão de que todos soubessem onde morava. Era só perguntar pela casa branca na vizinhança que todos sabiam dizer.

Nenhum segurança à vista quando avancei pelo gramado bem cuidado. Portas e janelas permaneciam fechadas. Deveria bater? De repente um clique. A sensação me fez girar lentamente. Um recado. Apesar de todo o tamanho, Pequeno estivera fora do alcance da vista. Um recado, porra, um recado. Quando o encontrei, já havia saído do carro. Um recado, caralho. Apoiava as mãos no teto para segurar com mais firmeza a pistola. O cano comprido mirava a minha testa. Bem no meio.

Delicate sound of thunder

janeiro 19, 2008 by alexandre rodrigues

Uma criança sempre terá grande dificuldade em entender uma imagem assim. Por que seus pais estavam nus com outras pessoas?

Com sua aparição, o caos se instalou no quarto. O pai ficou paralisado em um canto. A mãe deu um berro e tentou sair da cama, mas um dos homens, talvez sem perceber o drama a se desenrolar, agarrou-a com os braços fortes e tentou puxá-la para si. Ela se desvencilhou com um safanão e uma sentença:

– Tenho nojo de você.

O grandalhão recuou, surpreso como um cão flagrado numa travessura. A criança, a quem não escapou a pantomima, achou-a divertida e começou a rir.

A momentary lapse of reason

janeiro 17, 2008 by alexandre rodrigues

De repente se deu conta de que o apartamento não podia ser o seu, que não costumava se vestir daquele jeito e se por acaso aquele era o seu rosto deveria haver uma boa explicação para o fato de que agora tinha olhos azuis. Mas quando a mulher surgiu à porta, achou que, como tudo na vida, era questão de ser só um pouco adaptável.

Onde?

janeiro 15, 2008 by alexandre rodrigues

Onde está Paulo Scott?

O joguinho faz parte do blog de viagem que ele começou a escrever na sexta-feira. Se encontra na cidade que será o cenário de um romance para a coleção Amores Expressos, mas ainda não revelou qual. Já negou que seja Londres, San Francisco ou Barcelona. Dicas: não fica na América Latina e tem muitos turistas e praias, além de atrações “mundialmente badaladas”.

Quem primeiro acertar a cidade – promete o Scott – ganha um exemplar do livro que ainda será escrito.

janeiro 14, 2008 by alexandre rodrigues

Numa lista de melhores do mundo, o suplemento literário do The Guardian pôs a livraria El Ateneo, de Buenos Aires, em segundo lugar. Escolha justa, sinal de que, em vez de ficar se valendo apenas das atrações tradicionais, a capital está sempre criando novas para o turismo. Não duvidaria de saber que algumas megastores do Brasil têm um acervo maior, mas qual delas funciona dentro de um prédio tão bonito como o do antigo teatro da Ateneo?

No Brasil, como nos Estados Unidos, predominam as megastores, uma praga com espírito de supermercado. Ainda assim há uma loja americana na lista, a Secret Headquartes, de Los Angeles, que, depois de ver uma foto do interior, deu vontade de conhecer. Nenhuma brasileira.

Por falar em livrarias daqui, algo está acontecendo no Rio. Semanas atrás visitei as três lojas da Livraria da Travessa no centro em busca de um livro para dar de presente. Finalmente o encontrei no estoque da livraria na Travessa do Ouvidor, um lugar que, como as outras duas, surpreende pela qualidade do acervo, vendedores que, vejam só, entendem de livros e pelo ambiente. Bons livros, boa prateleira de quadrinhos e muita gente comprando. Pelas regras da indústria, não deveria existir um lugar assim. É mentira que todos só queiram preço. Só gente muito pobre de espírito não se sente bem em livrarias.

Voltando a El Ateneo, como bem explica o texto dos ingleses, trata-se de um espaço incomparável. O antigo palco, agora transformado numa cafeteria, é parte do show e as antigas coxias são pequenas salas de leitura. A foto aí em cima foi feita numa visita em 2006. Vários andares de diversão.