Um dia pensou em escrever sobre a livre escolha. Depois decidiu que não.
Barba Azul
June 21, 2009 · Leave a Comment
Ainda assim, insisti em que merecia ter a Síndrome do Sobrevivente, como meu pai, e então ela me fez duas perguntas. A primeira foi essa:
- Você acredita, às vezes, que é uma boa pessoa em um mundo onde quase todas as outras boas pessoas estão mortas?
- Não.
- Você acredita que às vezes precisa ser mau, já que todas as boas pessoas estão mortas, e que o único jeito de limpar seu nome é estar morto também?
- Não.
- Você pode merecer a Síndrome do Sobrevivente, mas não a adquiriu – disse ela. – Não quer tentar tuberculose no lugar?
Pena que o livro já está no fim. Um bom Vonnegut, com certeza. Tristemente melancólico, como Mother Night.
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Sobre o que é o seu livro?
June 19, 2009 · Leave a Comment
Este não é um livro em que os personagens buscam a felicidade. Não
explicitamente. Na real, são indiferentes à felicidade e também à
infelicidade. Não que não se importem. Simplesmente não pensam nela.
Movidos por pura obsessão, às vezes funcionam em um estado de
sabedoria e aceitação. Em outras dão a impressão de que,
desumanizados e perdidos, se tornaram máquinas que por uma falha de programação foram obrigadas a rotinas e tarefas aparentemente absurdas.
Texto da contracapa de “Veja se você responde essa pergunta”.
Eu sei, ficou meio Buarque.
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Of Montreal – Id Engager
June 18, 2009 · Leave a Comment
Não conhecia ainda o clipe. Bela música.
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A mais longa história de todas
June 18, 2009 · 1 Comment
A história, impressa na capa da revista Opium, tem nove palavras. Mas graças ao processo de impressão, uma dupla camada de tinta, exposta à luz ultravioleta cada palavra só vai se revelar mais ou menos a cada cem anos.
Por volta de 3009, se um exemplar ainda restar, se um curioso ainda existir a respeito, finalmente poderá ser lido inteiro o conto “The longest story ever”, de Jonathon Keats, que não é escritor, mas artista conceitual.
O que me leva a imaginar nove palavras que possam ser lidas como algo digno de se ler, não apenas uma curiosidade, algo mil anos no futuro. Eu escreveria o seguinte:
Desculpe, mas continuamos fazendo as coisas do jeito errado.
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O futuro é uma montanha de lixo*
June 14, 2009 · 4 Comments
Em 1976, uma greve de lixeiros tornou Londres uma cidade insuportável. Foi a mesma década em que a economia da Inglaterra decaiu, em que o governo já não não tinha mais dinheiro para bancar o Estado de bem estar social e uma série de greves teve como imagem mais marcante as montanhas de lixo acumulado nas ruas e esquinas. A podridão londrina foi o pano de fundo do surgimento do movimento punk, situação que Julian Temple não deixou passar em branco em O lixo e a fúria, sobre os Sex Pistols. Esta também foi a inspiração de 1985, um dos livros mais interessantes de Anthony Burgess.
Não é dos melhores dele. Dá para citar fácil cinco obras suas que são superiores. O que torna esse livro notável é sua pretensão. Burgess era arrogante. Um Himalaia de presunção. Tinha alma de hooligan, viajando pela Europa em seu dormobile para enfrentar os críticos em debates na TV onde quer que o convidassem. Por isso mesmo só ele poderia ter escrito 1985, um livro para desancar 1984, de George Orwell.
É praticamente impossível algo como 1985. Ataques a obras e autores são mais ou menos comuns no meio literário. Não é o mais interessante aqui. A questão é que em vez de apenas escrever um ensaio ou resenha dizendo o que achava de 1984, Burgess escolheu outro tipo de resposta: escrever ele mesmo como deveria ser o livro de Orwell.
Ele achava 1984 má ficção política e odiava o modo como o livro é celebrado – um manifesto libertário. Trata-se na real de uma história sobre a perda da capacidade de se apaixonar que, como profecia política, falhou completamente.
A primeira parte de 1985 é um ensaio sobre 1984 e outras obras futuristas, como Admirável mundo novo, de Huxley. Burgess amava distopias. Laranja Mecânica e Sementes Malditas são duas versões suas, tratando, respectivamente, da violência social e da ascensão dos gays. Este último é pouco conhecido e, fora a edição obscura que encontrei em um sebo, nunca mais vi à venda. Antes de Laranja Mecânica, foi o que me fez descobri-lo.
Voltando a 1984, o problema do livro de Orwell é a idéia de que o amor liberta. Claro que sim, mas não em qualquer circunstância. Não é algo realmente passável naquele contexto. E Orwell também produziu um livro bem pouco futurista na verdade. Reproduziu simplesmente a Londres de 1948, feia, sombria e arruinada pela guerra. Mas Londres logo deixou de ser assim. Em questão de anos o mundo de Orwell foi ultrapassado. Não é futurologia.
Na segunda parte, Burgess apresenta a própria versão de uma Inglaterra totalitária. A Londres de 1976, fedida e à beira do colapso, superado o cinismo da swinging London da década anterior, foi a idéia básica para a especulação sobre como seria se tudo aquilo ocorresse numa escala maior. Se todo aquele transtorno já era imposto aos londrinos, como seria se os sindicatos fossem o governo? O pano de fundo apresenta um elemento comum à obra de Burgess, o sujeito estigmatizado por não se enquadrar em um esquema.
Algum gerador de ironias históricas deve ter entrado em ação nesse ponto. A Londres que ele descreveu desapareceu rapidamente. Margareth Tatcher chegou ao poder no final da década. Enfrentou uma longa greve de mineiros cuja conseqüência foi o apoio da população às reformas liberais do governo que partiram a espinha do sindicalismo. Poucos anos depois da publicação, 1985 estava superado. No fim das contas, teve menos repercussão e importância do que 1984, que nunca deixou de ser celebrado .
Mas é infinitamente mais interessante.
* Publicado no antigo blog em 2007, reescrito agora.
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Música de sábado
June 13, 2009 · Leave a Comment
Pulp no programa Britpop Now – 1995.
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DFW infinito
June 13, 2009 · 1 Comment
O método de Wallace estava fundamentado na convicção de que a literatura deve se dirigir aos paradoxos e confusões do momento. Seu momento era era o capitalismo do fim do século na América, na qual, ele sabia, sua vida havia sido moldada com um genuíno senso de fraude e desespero. Isto foi especialmente verdadeiro para os jovens e cansados leitores de ficção, um grupo cujo agudo desconforto com sentido, emoção e valor Wallace considerava sintomático de uma ampla parcela na cultura. Ele observou como desprezamos a nós mesmo por sermos persuadidos pelas mesmas propagandas que parodiamos e ridicularizamos; como colocamos prazer no lugar de satisfação; como nossas realizações tendem a multiplicar nossa insatisfação. De todos que escreviam ficção nos aos 90, apenas Wallace falou diretamente conosco. Seus personagens, como seus leitores, são educados, fluentes, insatisfeitos e solitários. Arrastados ao ponto da catatonia, eles parecem incapazes incapazes de dizer o que significam. Da mesma forma, a prosa de Wallace erra sobre e através do sentido como um motor soltando faíscas e tentando compensar alguma peça quebrada. Embora uma vez tenha afirmado que poderia “nunca conseguir ser claro e conciso”, ele queria, esta falha é a chave para a estranha personificação em sua ficção da educada psiquê americana – uma psiquê sufocada com jargão manipulativo e tagarelice autoconsciente.
Death is not the end, excelente texto sobre David Foster Wallace.
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Alvorada
June 7, 2009 · Leave a Comment

Gabriel Pardal, dono do Esquadro, faz de poucas palavras algumas boas imagens. Ele criou a intervenção aí em cima a partir deste post.
Valeu, Gabriel.
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Prefácio de uma simples célula
June 4, 2009 · Leave a Comment
“Amebas não deixam fósseis. Elas não têm ossos (nem dentes, nem fivelas de cinto, nem aliança de casamento). É impossível, consequentemente, determinar há quanto tempo as amebas estão na Terra.
Existe a possibilidade de que elas estejam aqui desde que a cortina se abriu. Talvez até elas tenham dominado a cena desde o primeiro ato. Por outro lado, elas podem ter começado a existir apenas três anos – ou três dias ou três minutos – antes de terem sido descobertas por Anton van Leeuwenhoek, em 1674. Isso não pode ser provado.
Uma coisa, porém, é certa: como as amebas se reproduzem por divisão, infinitamente, transmitindo tudo e não desistindo de nada, a primeira ameba que existiu ainda está viva. Seja há quatro bilhões de anos ou simplesmente há trezentos ele/ ela ainda está conosco hoje.
Onde?
Bem, a primeira ameba pode estar flutuando de costas em uma luxuosa piscina de Hollywood, Califórnia. Ou, quem sabe, escondida entre as raízes das tiráceas do fundo lamacento do lago Siwash. A primeira ameba pode ainda ter acabado de cair de sua perna. É inútil especular.
A primeira ameba, como a última ou a que virá depois desta, está aqui, lá e em todo lugar, pois seu veículo, seu meio, sua essência, é a água.
Água – ás dos elementos. Água que se larga das nuvens sem pára-quedas, asas ou rede de segurança. Água que se joga do mais íngreme precipício sem vacilar. Água que penetra na terra e surge novamente em sua superfície; água que atravessa o fogo, que a faz borbulhar. Estilisticamente composta em qualquer estado – sólido, líquido ou gasoso -, falando dialetos penetrantes compreendidos por todas as coisas – animal, vegetal ou mineral -, a água viaja intrepidamente através de quatro dimensões, mantendo (chute uma alface no campo e ela gritará “Água”), destruindo (o dedo do menino holandês lembrava a vista do Ararat) e criando (diz-se até que os seres humanos foram criados pela água para transportá-la de um lugar ao outro, mas isto já é outra história). Sempre em movimento, num fluxo constante (seja em ritmo de riacho ou em velocidade de geleira), rítmica, dinâmica, onipresente, transformando-se e elaborando suas transformações, uma matemática que mostra seus erros, uma filosofia às avessas, a sempre crescente odisséia de água é irresistível. E onde quer que a água esteja, a ameba aí estará.
Sissy Henkshaw uma vez ensinou um periquito a viajar pedindo carona. Isso ela não precisaria ensinar a uma ameba.
Por sua habilidade como passageira, assim como por sua quase perfeita resolução das tensões sexuais, a ameba (e não a velha garça gritona) é aqui proclamada como a mascote oficial de Até as vaqueiras ficam tristes.
E, à primeira ameba, onde quer que ela esteja, Até as vaqueiras ficam tristes gostaria de dizer: “Feliz aniversário. Feliz aniversário para você“.
(Tom Robbins – abertura de ATÉ AS VAQUEIRAS FICAM TRISTES, uma das melhores já escritas).
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June 1, 2009 · Leave a Comment
Terminado o jogo, os estudantes foram inquiridos sobre o que acontece a seguir em três histórias incompetas envolvendo um motorista e um ciclista que quase colidem por um triz; dois amigos, um dos quais nunca se desculpa, embora chegue repetidamente tarde; e a conversa de um cliente com o gerente de um restaurante depois de esperar por uma hora para ser servido e ainda ter sido salpicado de comida. Aqueles que jogaram “Lemmings” (um jogo violento) sugeriram finais nos quais os personagens das histórias exibiam significantemente menos pensamentos agressivos, respostas e ações do que aqueles dos jogadores de “Tetris”.
Da Economist: videogames violentos podem tornar os jogadores mais sociáveis.
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