gabinetedentario.org

Determinismo para principiantes

June 22, 2009 · Leave a Comment

Um dia pensou em escrever sobre a livre escolha. Depois decidiu que não.

140 vezes.

→ Leave a CommentCategories: Metafísica

Barba Azul

June 21, 2009 · Leave a Comment

Ainda assim, insisti em que merecia ter a Síndrome do Sobrevivente, como meu pai, e então ela me fez duas perguntas. A primeira foi essa:

- Você acredita, às vezes, que é uma boa pessoa em um mundo onde quase todas as outras boas pessoas estão mortas?

- Não.

- Você acredita que às vezes precisa ser mau, já que todas as boas pessoas estão mortas, e que o único jeito de limpar seu nome é estar morto também?

- Não.

- Você pode merecer a Síndrome do Sobrevivente, mas não a adquiriu – disse ela. – Não quer tentar tuberculose no lugar?

Pena que o livro já está no fim. Um bom Vonnegut, com certeza. Tristemente melancólico, como Mother Night.

→ Leave a CommentCategories: Livros

Sobre o que é o seu livro?

June 19, 2009 · Leave a Comment

Este não é um livro em que os personagens buscam a felicidade. Não
explicitamente. Na real, são indiferentes à felicidade e também à
infelicidade. Não que não se importem. Simplesmente não pensam nela.
Movidos por pura obsessão, às vezes funcionam em um estado de
sabedoria e aceitação. Em outras dão a impressão de que,
desumanizados e perdidos, se tornaram máquinas que por uma falha de programação foram obrigadas a rotinas e tarefas aparentemente absurdas
.

Texto da contracapa de “Veja se você responde essa pergunta”.

Eu sei, ficou meio Buarque.

→ Leave a CommentCategories: Insanidade

Of Montreal – Id Engager

June 18, 2009 · Leave a Comment

Não conhecia ainda o clipe. Bela música.

→ Leave a CommentCategories: Música

A mais longa história de todas

June 18, 2009 · 1 Comment

A história, impressa na capa da revista Opium, tem nove palavras. Mas graças ao processo de impressão, uma dupla camada de tinta, exposta à luz ultravioleta cada palavra só vai se revelar mais ou menos a cada cem anos.

Por volta de 3009, se um exemplar ainda restar, se um curioso ainda existir a respeito, finalmente poderá ser lido inteiro o conto “The longest story ever”, de Jonathon Keats, que não é escritor, mas artista conceitual.

O que me leva a imaginar nove palavras que possam ser lidas como algo digno de se ler, não apenas uma curiosidade, algo mil anos no futuro. Eu escreveria o seguinte:

Desculpe, mas continuamos fazendo as coisas do jeito errado.

→ 1 CommentCategories: literatura

Efeméride

June 17, 2009 · Leave a Comment

Segunda-feira, 15 de junho de 2009, o dia em que Alexandre Rodrigues passou a ser proprietário de todos os livros de Kurt Vonnegut.

Barba Azul era o que faltava. Acontece de procurar muito um livro, desistir e, passado um tempo, uma hora pensar “é hoje” e ser mesmo. Com este, foram anos de espera.

As 42 páginas passadas até agora contam a história de Sirkis Karabekian, pintor armênio e impressionista abstrato, o que imediatamente remete a Rabo Karabekian, o pintor que faz um quadro com uma faixa azul pintada no fundo branco e profere algumas frases sensacionais lá pelo fim de Café-de-manhã dos campeões. A piada que é o mercado de arte pagar milhões por quadros que às vezes foram feitos de brincadeira é a idéia.

Vonnegut em 1987 era tão mestre quanto em qualquer tempo em fazer piada com coisas tristes com a graça de uma criança. A maneira como a mãe de Karabekian, sobrevivente do massacre de armenos pelos turcos (a primeira vez em que foi usada a palavra genocídio), escapa para os EUA é possivelmente a mais dolorosa piada já escrita. Escondida no meio de cadáveres, fingindo-se de morta, ela vê que da boca aberta de uma mulher assassinada caem jóias. As mesmas jóias que pagam sua fuga da Turquia. Mas no Cairo, ela, mulher casada, não pode participar das negociações da compra de um terreno e um futuro nos Estados Unidos. Está sempre com as jóias escondidas em sua boca.

Chegado o livro em casa, quis registrar o momento. Santino, que observava a cena, fez questão de participar.

santino_vonnegut

A sensação não é muito diferente daquela de encontrar a figurinha difícil (será que crianças ainda fazem isso?) que faltava no álbum.

→ Leave a CommentCategories: Metafísica

O futuro é uma montanha de lixo*

June 14, 2009 · 4 Comments

Em 1976, uma greve de lixeiros tornou Londres uma cidade insuportável. Foi a mesma década em que a economia da Inglaterra decaiu, em que o governo já não não tinha mais dinheiro para bancar o Estado de bem estar social e uma série de greves teve como imagem mais marcante as montanhas de lixo acumulado nas ruas e esquinas. A podridão londrina foi o pano de fundo do surgimento do movimento punk, situação que Julian Temple não deixou passar em branco em O lixo e a fúria, sobre os Sex Pistols. Esta também foi a inspiração de 1985, um dos livros mais interessantes de Anthony Burgess.

Não é dos melhores dele. Dá para citar fácil cinco obras suas que são superiores. O que torna esse livro notável é sua pretensão. Burgess era arrogante. Um Himalaia de presunção. Tinha alma de hooligan, viajando pela Europa em seu dormobile para enfrentar os críticos em debates na TV onde quer que o convidassem. Por isso mesmo só ele poderia ter escrito 1985, um livro para desancar 1984, de George Orwell.

É praticamente impossível algo como 1985. Ataques a obras e autores são mais ou menos comuns no meio literário. Não é o mais interessante aqui. A questão é que em vez de apenas escrever um ensaio ou resenha dizendo o que achava de 1984, Burgess escolheu outro tipo de resposta: escrever ele mesmo como deveria ser o livro de Orwell.

Ele achava 1984 má ficção política e odiava o modo como o livro é celebrado – um manifesto libertário. Trata-se na real de uma história sobre a perda da capacidade de se apaixonar que, como profecia política, falhou completamente.

A primeira parte de 1985 é um ensaio sobre 1984 e outras obras futuristas, como Admirável mundo novo, de Huxley. Burgess amava distopias. Laranja Mecânica e Sementes Malditas são duas versões suas, tratando, respectivamente, da violência social e da ascensão dos gays. Este último é pouco conhecido e, fora a edição obscura que encontrei em um sebo, nunca mais vi à venda. Antes de Laranja Mecânica, foi o que me fez descobri-lo.

Voltando a 1984, o problema do livro de Orwell é a idéia de que o amor liberta. Claro que sim, mas não em qualquer circunstância. Não é algo realmente passável naquele contexto. E Orwell também produziu um livro bem pouco futurista na verdade. Reproduziu simplesmente a Londres de 1948, feia, sombria e arruinada pela guerra. Mas Londres logo deixou de ser assim. Em questão de anos o mundo de Orwell foi ultrapassado. Não é futurologia.

Na segunda parte, Burgess apresenta a própria versão de uma Inglaterra totalitária. A Londres de 1976, fedida e à beira do colapso, superado o cinismo da swinging London da década anterior, foi a idéia básica para a especulação sobre como seria se tudo aquilo ocorresse numa escala maior. Se todo aquele transtorno já era imposto aos londrinos, como seria se os sindicatos fossem o governo? O pano de fundo apresenta um elemento comum à obra de Burgess, o sujeito estigmatizado por não se enquadrar em um esquema.

Algum gerador de ironias históricas deve ter entrado em ação nesse ponto. A Londres que ele descreveu desapareceu rapidamente. Margareth Tatcher chegou ao poder no final da década. Enfrentou uma longa greve de mineiros cuja conseqüência foi o apoio da população às reformas liberais do governo que partiram a espinha do sindicalismo. Poucos anos depois da publicação, 1985 estava superado. No fim das contas, teve menos repercussão e importância do que 1984, que nunca deixou de ser celebrado .

Mas é infinitamente mais interessante.

* Publicado no antigo blog em 2007, reescrito agora.

→ 4 CommentsCategories: Livros

Música de sábado

June 13, 2009 · Leave a Comment

Pulp no programa Britpop Now – 1995.

→ Leave a CommentCategories: Música

DFW infinito

June 13, 2009 · 1 Comment

O método de Wallace estava fundamentado na convicção de que a literatura deve se dirigir aos paradoxos e confusões do momento. Seu momento era era o capitalismo do fim do século na América, na qual, ele sabia, sua vida havia sido moldada com um genuíno senso de fraude e desespero. Isto foi especialmente verdadeiro para os jovens e cansados leitores de ficção, um grupo cujo agudo desconforto com sentido, emoção e valor Wallace considerava sintomático de uma ampla parcela na cultura. Ele observou como desprezamos a nós mesmo por sermos persuadidos pelas mesmas propagandas que parodiamos e ridicularizamos; como colocamos prazer no lugar de satisfação; como nossas realizações tendem a multiplicar nossa insatisfação. De todos que escreviam ficção nos aos 90, apenas Wallace falou diretamente conosco. Seus personagens, como seus leitores, são educados, fluentes, insatisfeitos e solitários. Arrastados ao ponto da catatonia, eles parecem incapazes incapazes de dizer o que significam. Da mesma forma, a prosa de Wallace erra sobre e através do sentido como um motor soltando faíscas e tentando compensar alguma peça quebrada. Embora uma vez tenha afirmado que poderia “nunca conseguir ser claro e conciso”, ele queria, esta falha é a chave para a estranha personificação em sua ficção da educada psiquê americana – uma psiquê sufocada com jargão manipulativo e tagarelice autoconsciente.

Death is not the end, excelente texto sobre David Foster Wallace.

→ 1 CommentCategories: literatura

Alvorada

June 7, 2009 · Leave a Comment

dormiu-no-taxi

Gabriel Pardal, dono do Esquadro, faz de poucas palavras algumas boas imagens. Ele criou a intervenção aí em cima a partir deste post.

Valeu, Gabriel.

→ Leave a CommentCategories: Uncategorized

Prefácio de uma simples célula

June 4, 2009 · Leave a Comment

“Amebas não deixam fósseis. Elas não têm ossos (nem dentes, nem fivelas de cinto, nem aliança de casamento). É impossível, consequentemente, determinar há quanto tempo as amebas estão na Terra.

Existe a possibilidade de que elas estejam aqui desde que a cortina se abriu. Talvez até elas tenham dominado a cena desde o primeiro ato. Por outro lado, elas podem ter começado a existir apenas três anos – ou três dias ou três minutos – antes de terem sido descobertas por Anton van Leeuwenhoek, em 1674. Isso não pode ser provado.

Uma coisa, porém, é certa: como as amebas se reproduzem por divisão, infinitamente, transmitindo tudo e não desistindo de nada, a primeira ameba que existiu ainda está viva. Seja há quatro bilhões de anos ou simplesmente há trezentos ele/ ela ainda está conosco hoje.

Onde?

Bem, a primeira ameba pode estar flutuando de costas em uma luxuosa piscina de Hollywood, Califórnia. Ou, quem sabe, escondida entre as raízes das tiráceas do fundo lamacento do lago Siwash. A primeira ameba pode ainda ter acabado de cair de sua perna. É inútil especular.

A primeira ameba, como a última ou a que virá depois desta, está aqui, lá e em todo lugar, pois seu veículo, seu meio, sua essência, é a água.

Água – ás dos elementos. Água que se larga das nuvens sem pára-quedas, asas ou rede de segurança. Água que se joga do mais íngreme precipício sem vacilar. Água que penetra na terra e surge novamente em sua superfície; água que atravessa o fogo, que a faz borbulhar. Estilisticamente composta em qualquer estado – sólido, líquido ou gasoso -, falando dialetos penetrantes compreendidos por todas as coisas – animal, vegetal ou mineral -, a água viaja intrepidamente através de quatro dimensões, mantendo (chute uma alface no campo e ela gritará “Água”), destruindo (o dedo do menino holandês lembrava a vista do Ararat) e criando (diz-se até que os seres humanos foram criados pela água para transportá-la de um lugar ao outro, mas isto já é outra história). Sempre em movimento, num fluxo constante (seja em ritmo de riacho ou em velocidade de geleira), rítmica, dinâmica, onipresente, transformando-se e elaborando suas transformações, uma matemática que mostra seus erros, uma filosofia às avessas, a sempre crescente odisséia de água é irresistível. E onde quer que a água esteja, a ameba aí estará.

Sissy Henkshaw uma vez ensinou um periquito a viajar pedindo carona. Isso ela não precisaria ensinar a uma ameba.

Por sua habilidade como passageira, assim como por sua quase perfeita resolução das tensões sexuais, a ameba (e não a velha garça gritona) é aqui proclamada como a mascote oficial de Até as vaqueiras ficam tristes.

E, à primeira ameba, onde quer que ela esteja, Até as vaqueiras ficam tristes gostaria de dizer: “Feliz aniversário. Feliz aniversário para você“.

(Tom Robbins – abertura de ATÉ AS VAQUEIRAS FICAM TRISTES, uma das melhores já escritas).

→ Leave a CommentCategories: Livros

June 1, 2009 · Leave a Comment

Terminado o jogo, os estudantes foram inquiridos sobre o que acontece a seguir em três histórias incompetas envolvendo um motorista e um ciclista que quase colidem por um triz; dois amigos, um dos quais nunca se desculpa, embora chegue repetidamente tarde; e a conversa de um cliente com o gerente de um restaurante depois de esperar por uma hora para ser servido e ainda ter sido salpicado de comida. Aqueles que jogaram “Lemmings” (um jogo violento) sugeriram finais nos quais os personagens das histórias exibiam significantemente menos pensamentos agressivos, respostas e ações do que aqueles dos jogadores de “Tetris”.

Da Economist: videogames violentos podem tornar os jogadores mais sociáveis.

→ Leave a CommentCategories: Tempos modernos